A França concentra o maior número de cidadãos muçulmanos da Europa. Em determinados bairros, ocidentais/cristãos são discriminados e não entram mais sem identificação prévia. Os franceses estão literalmente sendo engolidos pelas leis islâmicas, impostas pela minoria. Crédito: Peter Macdiarmid/Getty Images

A Igreja Católica vai acumulando mártires em seu museu do esquecimento. As cabeças guilhotinadas pelo secularismo presente na Revolução Francesa marcam encontro fúnebre com os degolados pelo radicalismo islâmico da França multiculturalista. De fato, nossa cultura parece sob ataque. Mas não apenas dos agentes externos; os principais algozes somos nós mesmos, inebriados pela covardia e pela ideologia permissiva e passiva do multiculturalismo.

Jacques Hamel é um caso típico de mártir cristão. Em 2016, na cidade francesa de Nantes, o padre foi morto no Altar, exaltando o nome de Cristo, por dois muçulmanos que o obrigaram a se ajoelhar. A cena é tão potente que se tornou simbólica. O dever de professar a fé como último ato é, em última instância, a resolução final da tensão contínua entre culturas, que não dissolvem por convivência mediada.

De fato, temos hoje um verdadeiro museu de pessoas que sacrificaram sua vida por Cristo ao redor do mundo. Um cemitério não serviria. Terá de ser um museu revisitado de tempos em tempos, acumulando novas peças. Os ataques à fé edificam o martírio que sublima a própria existência. Porém, seu sangue derramado não capacita a nenhuma reação, de ninguém. E isso é, acima de tudo, sintoma de nossa incapacidade de defender os valores que nos foram herdados.

O filósofo canadense Charles Taylor, em seu livro “El Multiculturalismo y la política del reconocimiento“, faz um traço de análise que é comum entre muitos teóricos. Entende que a falta de reconhecimento, a não inclusão total, é uma repressão que causa violência.

“O falso reconhecimento, ou a falta de reconhecimento, pode causar danos, pode ser uma forma de opressão que subjugue alguém a ser falsificado, deformado ou reduzido”.

Essa visão traz embutida uma outra proposição, a de que se há um direito de ser reconhecido se tem também o dever de se reconhecer o outro. Ou, por outra, que a discriminação é um atentado à própria existência. E essa não é exatamente a justificação intelectual que terroristas usam?

Dizem eles: “Sim, estamos diante de um ataque terrorista doentio, no entanto, somos produto de uma violência anterior e contínua, perpetrada por vocês, ocidentais, contra nós”.

A retórica é, necessariamente, identitária. A busca comum é por uma identidade particular, mas que seja universalmente aceita. E, ainda que a identidade traga consigo diversas problemáticas – como o estigma terrorista – ela deve ser absolvida acriticamente por todas as sociedades liberais.

Idealização islâmica

No entanto, essa busca pela identidade é mesmo o centro dessa tensão permanente? É a busca pelo respeito e reconhecimento mútuo que causa a explosão de ódio e violência? Tendo a discordar dessa ideia. Como escreveu Slavoj Zizek em Violência – Seis Reflexões Laterais, não há uma vontade real de impor a própria convicção sobre os demais, é precisamente o contrário: se sentem contaminados, em termos e conteúdo, pelo Ocidente e seus valores. A fé está sendo corrompida; sua convicção, derrotada. Falta um verdadeiro fundamentalismo islâmico.

E não é que busquem ter reconhecido o seu status de muçulmano perante a sociedade francesa ou cristã, eles pretendem dirimir todas as demais culturas para que não se sintam ameaçados pela corrupção do hedonismo. 

“A fé de um muçulmano deve ser muito fraca para se sentir ameaçado por uma caricatura idiota publicada por um jornal dinamarquês de pequena circulação. […] O problema com os fundamentalistas não é que os consideremos inferiores a nós, mas antes o fato de eles próprios se considerarem inferiores, em segredo”.

Não veem a si mesmos – ou a sua luta por meios do terror – como narcisistas. Não buscam o amor próprio ou seu reconhecimento, mas atuam pelo seu oposto, que não é o altruísmo, e sim o ressentimento.

Sem empenho para sobreviver

Em Jack Reacher — O último tiro, filme estrelado por Tom Cruise, o antagonista é um ex-prisioneiro soviético que sobreviveu aos gulags. E somente conseguiu sobreviver por estar disposto a sacrificar partes de si mesmo. Essa vontade de viver a todo custo, a defender-se independente das consequências, foi perdida. Não será por meio do suicídio que irão se destruir; será pela omissão. Pela indiferença.

A Revolução Francesa é um marco na produção da própria identidade moderna. Como escreveu a filósofa Chantal Mouffe, “a criação de uma identidade implica o estabelecimento de uma diferença”, logo, precisa-se estabelecer uma distinção entre sujeitos para se identificar.

Em 1789, a burguesia emergente – composta por uma elite econômica e clerical – se identificava pela diferença clara com a nobreza decadente do ancien règime. Com a imposição dos jacobinos, em 1793, a diferenciação já ocorria dentro da própria burguesia.

A questão é que agora, neste mar de subjetividades, onde a identidade corresponde a uma raiz solipsista, não há uma formação que permita uma suspensão das diferenças por um bem comum e maior, como é a noção de sobrevivência. Até por que se tem uma diferença de visão acerca do que é sobreviver para diferentes grupos.

Fraternidade baseada no terror

Os valores iluministas e seculares precisavam ser implementados, e os jacobinos sabiam disso. Ou, por outra, quando se afirma A devem estar preparados para o que decorre disso em B. Os valores iluministas – liberdade, fraternidade, irmandade, etc – só puderam existir por terem sido fundamentados acima do terror jacobinista.

Hoje, precisamos defender a sociedade ocidental. A brasileira Simone Barreto, morta em um ataque terrorista a uma catedral em Nice, é a representação de nossos valores em seu estado mais puro, com todas suas contradições. Meritória, saiu da Bahia para a França ainda no fim do século XX com uma companhia de dança. Criou sua família lá, cuidou de suas filhas, se tornou chefe de cozinha e mantinha sua fé em Deus. Para que outras Simones não sejam mortas, precisamos ter coragem de enfrentar as consequências de nossas escolhas – defender com sangue nossa cultura e valores.

As igrejas queimam porque deixamos queimar. Não somos os primeiros a condenar qualquer crítica ao islã por supostamente serem islamofóbicas? Ora, defender a tolerância como condição essencial à existência da sociedade ocidental é pô-la ao caminho da própria derrocada. É autoderrotista.

Multiculturalismo como metacultura

A filósofa italiana Cinzia Sciuto, apresentou um caso claro de como a islamofobia é uma carta coringa na blindagem do islã. Em Non c’è fede che tenga — manifesto laico contro il Multiculturalism, relata o caso da Cemb (conselho de ex-muçulmanos da Grã-Bretanha, em inglês) que é acusada por governos e organizações islâmicas de preconceito e racismo, mesmo sendo uma associação de muçulmanos que se afastaram da religião e, como é óbvio, derivam da mesma região.

E isso se deve ao fato de que o Multiculturalismo se tornou uma metacultura no chamado Ocidente, que permeia todas as demais. Retornando a Charles Taylor, quando diz que “o reconhecimento devido não é só uma cortesia que devemos aos demais: é uma necessidade humana vital”, quer, na verdade, dizer que devemos obrigação aos outros de conviver com toda e qualquer diferença, sem direitos a objeção.

A necessidade vital de ser reconhecido se torna ainda mais nociva, pois, estamos sempre diante de uma sublevação constante de novas subjetividades, enquanto os algozes muçulmanos se unem por uma metanarrativa superior a qualquer cisão interna.

A religião secular reinante, que é o Multiculturalismo, se une como aliada objetiva da religião teísta do islamismo. A vergonha em afirmar seus valores fortalece aqueles que desejam, sem vergonha alguma, os destruir. De Padre Hamel a Simone Barreto, acumulamos mártires que se apagam por nossa incapacidade de lutar.

Fonte: Orlando Lima/Insurgere

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